Postado em 21 de Setembro às 10h36

Manicure transforma trabalho informal em negócio de 30 anos

Empreendedora de Quilombo descobriu habilidade na adolescência e encontrou no microcrédito apoio para transformá-la em negócio, sustentar a família e crescer no mercado

Aos 62 anos, Salete Foschiera, se orgulha da história que a tornou empreendedora (Keli Magri/MB Comunicação)

Há 30 anos, uma pequena sala alugada em Quilombo, no Oeste catarinense, concentrava praticamente toda a vida de Salete Foschiera. Ali estavam a cozinha, o quarto e o salão de beleza que ela acabara de abrir. O espaço era simples, os recursos, limitados. A disposição para trabalhar, porém, parecia não conhecer o mesmo limite.
          Hoje, aos 62 anos, Salete olha para aquela época com a segurança de quem atravessou dificuldades, criou a filha com a renda do próprio trabalho e construiu uma clientela regional.
          A história profissional começou muito antes da abertura do salão. Ainda adolescente, Salete fazia as unhas das vizinhas da mãe. O que naquele momento era apenas uma habilidade ajudaria a apontar um caminho que ela só compreenderia anos mais tarde.
          Antes disso, experimentou diferentes formas de ganhar a vida. Trabalhou como balconista em uma loja de roupas, seu único emprego com carteira assinada. Foi atrás do balcão que aprendeu algo que levaria para toda a trajetória profissional: vender e, sobretudo, lidar com pessoas.
          Depois, passou a comercializar produtos de limpeza de porta em porta. Mais tarde, dividiu a rotina entre dois trabalhos. Às sextas-feiras e aos sábados atuava como manicure em um salão de beleza. Durante a semana, percorria casas para vender artigos de enxoval. A habilidade comercial logo apareceu nos resultados. “Lembro até hoje que, no primeiro mês como vendedora de enxoval, vendi 85 cobertores”, recorda.
          O medo que abriu caminho para uma profissão
          A experiência como manicure fez Salete enxergar novas possibilidades no setor da beleza. Decidida a avançar, matriculou-se no curso de cabeleireira do Senac, em Chapecó. As aulas eram à noite e representavam o primeiro investimento concreto em uma profissão que, dali em diante, sustentaria sua família.
          No começo, cortar cabelos era um desafio. “Eu tinha medo de cortar cabelo. Lembro que meu primeiro grande desafio foi em uma aula prática do Senac, quando tive que cortar o cabelo da diretora. Tinha muito medo de errar, mas deu tudo certo.”
          Salete não esperou a conclusão do curso para empreender. Alugou uma sala e abriu o próprio salão. No mesmo espaço, improvisou sua casa e seu local de trabalho. As primeiras clientes vieram das relações que já havia construído como manicure.
          Com o tempo, ampliou os serviços e se especializou. Passou a trabalhar com cortes, coloração, hidratação, botox capilar e, principalmente, alisamentos. O período de implantação do negócio coincidiu com uma fase delicada da vida pessoal. Recém-separada e responsável pela criação da filha, Nayara, Salete encontrou no salão sua única fonte de renda.
          “Eu trabalhava das 7 horas até 1 hora da manhã, direto. Passei dois anos e meio trabalhando 18 horas por dia, inclusive domingos e feriados. Foi bem quando me separei e tinha minha filha para criar. Eu poderia passar fome ou deixar de comprar algo para mim, mas não queria deixar faltar nada para ela.”
          As dificuldades daquele período permanecem nítidas na memória. Houve um mês em que faturou apenas R$ 160, enquanto o aluguel custava R$ 200. Depois da separação, passou cerca de um ano dormindo em um colchão no chão.           Desistir, porém, não entrou nos planos.
          Crédito para manter o negócio vivo
          Foi no esforço para equilibrar as contas da família e do salão que a Credioeste passou a fazer parte da história de Salete. Ela tornou-se cliente da instituição em 2004, quando contratou o primeiro crédito, no valor de R$ 1,5 mil. O recurso tinha um destino que resume boa parte de suas prioridades ao longo dos anos: ajudar a pagar a faculdade da filha.
          Desde então, foram 17 operações de crédito, destinadas tanto à qualidade de vida quanto ao capital de giro. Os recursos ajudaram na compra de mercadorias, aquisição de móveis, decoração, reformas e nas necessidades financeiras do salão.
          “A Credioeste foi minha mão direita para chegar até onde estou hoje. Eu precisava de ajuda para dar giro no salão e conseguir pagar a faculdade da minha filha. Essa sempre foi minha única renda. A ajuda da Credioeste manteve meu negócio vivo e me fez crescer.”
          Para Salete, a relação construída ao longo dessas duas décadas também ultrapassa a concessão do crédito. Ela destaca a proximidade e o acompanhamento oferecidos pela instituição, especialmente pelo agente de crédito Cezar Gubiani, que a atende há 19 anos. “O atendimento é ótimo. O Cezar é maravilhoso, me responde na mesma hora, me visita e me ajuda quando preciso.”
          A trajetória ressalta uma das funções do microcrédito produtivo: oferecer condições para que pequenos empreendedores mantenham a atividade, organizem o fluxo financeiro e encontrem espaço para investir.
          Clientes viraram parte da história
          A pequena sala onde tudo começou ficou no passado. O salão cresceu, recebeu investimentos e ganhou novos serviços e produtos. Além do trabalho como cabeleireira, Salete comercializa roupas e lingerie, atividade que também resgata aquela antiga habilidade de vendedora desenvolvida antes mesmo de ela imaginar que teria um negócio próprio.
          Aos 62 anos, mantém uma rotina intensa. Atende de segunda-feira a sábado e organiza a agenda conforme a disponibilidade das clientes. “No salão, a gente precisa se adaptar ao horário da cliente. Às vezes, atendemos nos três turnos.”
          A carteira supera 200 clientes. Além de Quilombo, chegam clientes de municípios como Cordilheira Alta, Chapecó, São Lourenço do Oeste, Formosa do Sul, Santiago do Sul e São Domingos. Alguns frequentam o salão há três décadas e acompanharam praticamente toda a transformação profissional e pessoal da cabeleireira.
          O resultado que mais emociona Salete, no entanto, está fora do salão. A filha Nayara concluiu a graduação em Pedagogia, foi aprovada em concurso público e hoje é diretora de uma creche no município. Para uma mãe que enfrentou jornadas de até 18 horas para garantir os estudos e o futuro da filha, a conquista dá outro significado aos anos difíceis.
          Hoje, Salete se diz realizada e orgulhosa do caminho que construiu. A adolescente que começou fazendo as unhas das vizinhas tornou-se empresária sem abandonar a essência do trabalho que aprendeu nas primeiras experiências profissionais: conhecer as pessoas, cuidar bem de cada cliente e não ter medo de começar pequeno.
          Depois de 30 anos, sua principal recomendação para quem deseja empreender não está em uma fórmula de negócios. Está na qualificação, na dedicação e no vínculo com aquilo que se escolhe fazer. “Sempre digo: faça um curso profissionalizante, dedique-se, faça bem feito e priorize seu cliente. Nunca trabalhe só por dinheiro, mas por amor. Fazer o que gosta é o segredo do sucesso de qualquer negócio”.

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