Automedicação pode aliviar na hora, mas também mascarar doenças, causar reações e sobrecarregar fígado, rins e estômago
Dr. Juliano Brustolin
Uma dor de cabeça no meio do expediente, um resfriado ‘chegando’, aquela azia que aparece depois de um dia corrido… Em muitos lares, a resposta é abrir a gaveta de medicamentos ou ir direto à farmácia em busca de ‘algo para resolver’. O problema é que essa praticidade, tão comum no Brasil, pode transformar um sintoma passageiro em um problema maior.
De acordo com o coordenador médico dos serviços externos da Unimed Chapecó e médico responsável pela área de Medicina de Família e Comunidade, Dr. Juliano Brustolin, é essencial lembrar que remédio não é inofensivo. “Toda medicação tem um princípio ativo, baseado em uma substância química. Ela pode ter efeito benéfico quando bem indicada e acompanhada, mas também pode causar efeitos adversos quando usada de forma inadequada”, alerta.
ALÍVIO QUE ENGANA
A automedicação é perigosa porque ela pode silenciar o sinal do corpo sem resolver a causa. A dor, por exemplo, costuma ser um aviso. “Ela não surge sem motivo. É uma manifestação de que alguma coisa não está normal”, explica o médico.
Quando a pessoa usa analgésicos, anti-inflamatórios ou outros medicamentos por conta própria e não investiga a origem do sintoma, corre o risco de mascarar doenças e adiar diagnósticos. O resultado é que o quadro pode evoluir em silêncio e a procura por atendimento acontece só quando a situação se agrava.
Segundo o Dr. Juliano, de 10% a 12% das pessoas que se automedicam podem sofrer reações adversas e acabar internadas por complicações relacionadas ao uso inadequado de medicamentos. Pode parecer pouco, mas é um número alto quando se pensa no volume de internações e no risco envolvido.
O CAMINHO DO MEDICAMENTO
Um ponto central destacado por Dr. Juliano é o caminho do medicamento dentro do organismo. Em geral, ele é absorvido pelo estômago, cai na corrente sanguínea e passa pelo fígado, responsável por “filtrar” e metabolizar essas substâncias. Depois, o rim entra em ação para excretar o que o corpo não precisa.
?Fígado: O uso inadequado e repetido pode gerar sobrecarga e, em casos graves, evoluir para insuficiência hepática.
?Rins: A exposição frequente e prolongada pode causar lesões internas e levar à perda progressiva da função renal, especialmente em idosos.
?Estômago: Alguns medicamentos podem irritar a mucosa, agravar a gastrite e provocar úlceras e até hemorragias digestivas.
O risco aumenta para quem já tem doenças crônicas e também para quem ainda não sabe que tem alguma condição de saúde.
NEM TODA DICA SERVE PARA TODO MUNDO
Indicações de amigos, familiares e vizinhos, além de “dicas” em redes sociais e páginas da internet, costumam parecer seguras, mas podem ser um atalho perigoso, pois cada organismo é único. “Muitas pessoas são intolerantes a certas substâncias, muitas são alérgicas e outras não têm o resultado esperado com um medicamento e precisam de troca”, explica Dr. Juliano. Ou seja, algo que funcionou para alguém pode causar efeitos indesejados em outra pessoa.
Além disso, há o risco de interações medicamentosas, principalmente em quem já faz uso contínuo de remédios. Isso vale para pessoas com hipertensão e diabetes, mas também para quem usa medicamentos controlados para dor crônica, ansiedade ou depressão.
O médico faz um alerta especial para um hábito comum, usar remédio ‘emprestado’, inclusive ansiolíticos e antidepressivos, porque alguém disse que faz bem. Esse tipo de uso pode trazer complicações sérias.
A FEBRE DO MOMENTO
Outro ponto lembrado pelo Dr. Juliano é a busca por soluções rápidas e promessas de resultado fácil. Um exemplo atual é o uso indiscriminado das canetas emagrecedoras, muitas vezes sem avaliação ou acompanhamento profissional.
Ele destaca que esse uso, sem orientação, pode causar quedas de pressão, desidratação, diarreia, vômitos, desmaios, além de outras complicações, inclusive sobrecarga de órgãos como o fígado.
O médico reconhece que nem toda queixa exige uma consulta imediata. Em alguns casos, a pessoa pode usar um medicamento já conhecido, que foi prescrito anteriormente para um quadro semelhante. Mas existe um limite importante, e, se não houver melhora, não se deve insistir.
SINAIS DE ALERTA PARA BUSCAR ATENDIMENTO
?Dor forte ou dor que não cessa
?Febre persistente
?Falta de ar
?Dor abdominal intensa
?Vômitos e diarreia que não param
?Desmaios ou perda de consciência
Se esses sinais aparecem, a automedicação pode estar apenas ‘encobrindo’ a situação e atrasando o cuidado necessário.
Conforme o Dr. Juliano, a orientação é sempre tratar o medicamento com seriedade. Remédios podem ajudar, mas precisam ser usados com responsabilidade e procedência. “O médico é o profissional mais adequado para fazer o diagnóstico, identificar a causa e indicar um tratamento individualizado”, reforça.
No fim, vale lembrar que a saúde não combina com pressa. O que parece simples pode ser sinal de algo maior, e a melhor escolha sempre é a que une informação, atenção ao corpo e orientação profissional.
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