O futuro nasce das raízes: Ipumirim transforma tradição em oportunidade
Com apoio do Sebrae/SC, seminário mobiliza comunidade de Serra Alta para transformar patrimônio cultural e tradições em oportunidades de empreendedorismo
Seminário mobilizou moradores e lideranças de Serra Alta para discutir cultura, turismo e novas oportunidades de negócios. (Foto: Bruna Roman/MBComunicação)
Entre receitas antigas, palavras herdadas dos antepassados, cantos em alemão e paisagens que se abrem no alto dos morros, a comunidade de Serra Alta, no interior de Ipumirim (SC), começou a desenhar novos caminhos para o futuro. Caminhos que preservam a força da agricultura, mas também encontram no turismo rural e cultural uma nova possibilidade de renda, permanência das famílias no campo e valorização da identidade local.
Essa foi a proposta do Seminário Cultura Alemã e Oportunidades de Negócios, realizado na comunidade de Serra Alta. Promovido pela Epagri, com apoio da Prefeitura de Ipumirim e do Sebrae/SC, o encontro reuniu moradores, produtores rurais, representantes do poder público e lideranças locais para discutir de que forma o patrimônio cultural, as belezas naturais e a produção agrícola podem se transformar em experiências turísticas e empreendimento sustentável.
A programação integra um movimento mais amplo de planejamento do turismo no município. O Sebrae/SC auxilia Ipumirim na elaboração do Plano Municipal de Turismo, documento que deverá ser entregue até o fim do ano e servirá de base para orientar as estratégias do setor nos próximos anos.
De acordo com o gestor de projetos do Sebrae/SC na regional Oeste, Renê Luiz Anziliero, atividades como o seminário aproximam o planejamento da realidade das comunidades e estimulam um novo olhar sobre os recursos já existentes no território. “O Sebrae/SC trouxe uma palestra sobre o potencial do turismo, especialmente ligado ao meio rural e às características da região Oeste. A intenção é inspirar a comunidade a perceber o que pode ser desenvolvido em Serra Alta, onde há uma cultura alemã muito forte, inúmeras histórias e locais de grande beleza”, explicou.
Para Renê, o turismo pode ser incorporado às propriedades como atividade complementar à produção de grãos, proteínas e outros alimentos. “A ideia é que o agricultor transforme a propriedade e seus conhecimentos em uma nova vertente econômica. Além da atividade agropecuária, o turismo pode se tornar outra fonte de geração de renda para a família e, consequentemente, para o município”, destacou.
ONDE A HISTÓRIA ABRE NOVOS CAMINHOS
A comunidade de Serra Alta reúne características favoráveis à criação de uma rota turística. Além das paisagens rurais e dos paredões naturais, a região preserva edificações antigas, igrejas, festas comunitárias, cantos, culinária típica, artesanato, histórias familiares e o uso da língua alemã.
A diretora de Projetos e presidente do Conselho Municipal de Turismo, Nedi Terezinha Locatelli, lembrou que Serra Alta possui uma configuração territorial singular. Embora o nome pertença a Ipumirim, a comunidade também reúne moradores ligados aos municípios de Arabutã, Seara e Xavantina. “É uma região com uma riqueza cultural maravilhosa. Temos a língua, os cantos, a culinária típica, o artesanato, as belezas naturais, a arquitetura e propriedades antigas que ainda preservam características únicas”, afirmou.
Segundo Nedi, esses elementos aguardam há anos uma oportunidade de reconhecimento como patrimônio e de conversão em possibilidades de renda. O seminário, portanto, buscou incentivar a própria comunidade a identificar seus potenciais. “Os moradores são os verdadeiros proprietários dessas oportunidades. Mas, para que elas se transformem em negócios e reconhecimento, é necessária a ação conjunta da comunidade e do poder público”, observou.
A participação superou a expectativa dos organizadores, o que demonstrou o interesse dos moradores pelo tema. As discussões e as atividades em grupo também deverão contribuir para a elaboração do Plano Municipal de Turismo, especialmente na etapa dedicada à cultura alemã.
O gerente regional da Epagri, Nédio Luiz Patzlaff, explicou que o seminário surgiu no contexto das comemorações dos 100 anos da colonização alemã e de um debate que acompanha Serra Alta há pelo menos duas décadas. “Há mais de 20 anos se pensa em uma rota turística e se observam as belezas naturais deste local. Nesse período, surgiram agroindústrias e diferentes negócios na comunidade e em seu entorno. Hoje, entendemos que há um grande potencial a ser explorado”, ressaltou.
Para Nédio, festas, igrejas, idioma, manifestações culturais e empreendimentos rurais formam um conjunto capaz de atrair visitantes e gerar oportunidades. O turismo também pode ampliar a inclusão econômica de famílias que, ao longo do tempo, encontram dificuldades para permanecer em determinadas atividades agropecuárias. “A maioria dos nossos produtores desenvolve muito bem as atividades rurais. No entanto, algumas cadeias produtivas evoluem e acabam excluindo determinados produtores. Precisamos buscar outras alternativas de inserção econômica para essas famílias, e o turismo e a cultura podem contribuir muito nesse sentido”, ressaltou.
Entre os patrimônios mencionados está a Sociedade dos Cantores Niegedacht, frequentemente grafada e lembrada como "Nike Dart". Fundada em agosto de 1988 pelos antepassados e atuais moradores, esta associação sem fins lucrativos preserva as tradições, o canto coral e a cultura de origem alemã na região.
Também está em discussão a reconstrução de um antigo salão de baile que pertenceu à família de Patzlaff e que, no passado, recebeu bailes de e outras celebrações da cultura alemã. A proposta é que o espaço volte a ser um ponto de encontro da comunidade e, futuramente, torne-se uma atração para visitantes interessados em conhecer a história, as festas e as tradições de Serra Alta.
SEMENTE PARA O FUTURO
Para o diretor de Cultura e Turismo de Ipumirim, Valdecir Frâncio, levar o seminário ao interior representa um primeiro passo para que as comunidades reconheçam, de forma concreta, as oportunidades existentes. “O turismo ainda é algo novo para o município. Fala-se sobre ele há bastante tempo, mas muitas ideias permanecem no papel. Por isso, damos este primeiro passo em Serra Alta, para mostrar o que o turismo pode proporcionar”, afirmou.
A região reúne comunidades marcadas pela colonização alemã, enquanto outra parte do município preserva, de forma predominante, a cultura italiana. A intenção da administração municipal é promover atividades semelhantes também nessas localidades.
Valdecir destacou que Serra Alta possui agroindústrias, propriedades familiares, produção diversificada de alimentos e uma paisagem singular. A combinação desses elementos pode favorecer a criação de experiências ligadas à gastronomia, à vivência rural, à história, à arquitetura e ao contato com a natureza. “As pessoas que vivem aqui podem encontrar no turismo uma renda complementar, com valorização do que já produzem e do modo de vida que preservam. Estamos plantando uma semente para que isso realmente aconteça”, salientou.
O desenvolvimento de uma rota, no entanto, depende do envolvimento direto dos moradores. São eles que conhecem as histórias, dominam receitas, preservam objetos, mantêm construções, cultivam alimentos e carregam memórias que muitas vezes não estão registradas em livros.
O FUTURO NASCE DAS RAÍZES
Durante o encontro, a professora aposentada Lia Helbing Patzlaff chamou a atenção para a necessidade de transmitir esses conhecimentos às novas gerações. Segundo ela, muitos jovens já não aprenderam práticas que antes faziam parte da rotina das famílias, como o plantio de batata, aipim, arroz e outros alimentos destinados à subsistência.
“Nós deveríamos, como pais e dentro do núcleo familiar, nos preocupar muito mais em transmitir esses conhecimentos. Hoje conseguimos enxergar melhor de que forma podemos contribuir com aquilo que sabemos, ajudar no resgate da comunidade e levar esse conhecimento a outras pessoas”, relatou.
Lia também falou sobre a redução do uso da língua alemã e o desaparecimento de receitas e costumes que marcaram sua infância. Sua reflexão reforçou uma das principais mensagens do seminário, preservar a cultura não significa apenas olhar para o passado, mas criar condições para que os saberes permaneçam vivos, circulem e também gerem desenvolvimento.
Ao apoiar o planejamento turístico de Ipumirim e participar de ações de mobilização nas comunidades, o Sebrae/SC contribui para que os recursos já presentes no território sejam reconhecidos, organizados e convertidos em oportunidades de negócio. O trabalho envolve sensibilização, planejamento, capacitação, empreendedorismo e articulação entre moradores, instituições e poder público.
Em Serra Alta, o turismo começa a ganhar forma a partir daquilo que a comunidade tem de mais autêntico, suas paisagens, seus sabores, suas histórias e maneira de viver. O desafio, agora, é transformar memória em experiência, patrimônio em pertencimento e potencial em renda, sem perder as raízes que tornam o lugar único.
SOBRE O SEBRAE
O Sebrae/SC comemora, em 2026, 53 anos de dedicação ao fortalecimento dos pequenos negócios e ao fomento do empreendedorismo em Santa Catarina. Com presença em todas as regiões do Estado, a instituição oferece soluções que impulsionam o desenvolvimento econômico e social, apoia milhões de empreendedores ao longo de sua trajetória. Reconhecido nacionalmente, o Sebrae é hoje a 4ª marca mais valiosa do país, com um ativo de R$ 33,9 bilhões, reflexo de sua credibilidade, impacto e compromisso com a transformação dos territórios onde atua. Em Santa Catarina, o Sebrae é parceiro estratégico de quem faz o estado crescer.
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