Postado em 02 de Setembro às 10h04

O empreendedorismo por trás de cada “cantinho do céu”

         Há dez anos, empreendedora de Chapecó transforma ambientes com papel de parede e constrói uma trajetória marcada pela proximidade com os clientes, persistência e apoio da Credioeste

Néri Balen empreende há mais de 30 anos e hoje comanda seu negócio de venda e instalação de papel de parede em Chapecó (Sara Bellaver/MB Comunicação)

Antes de escolher um papel de parede, Néri Teresinha Balen gosta de conhecer a casa. Observa os móveis, as cores, a luz, o tamanho do ambiente e, principalmente, escuta quem vive ali. Nem sempre o cliente sabe exatamente o que procura. Às vezes, chega com uma ideia pronta; em outras, descobre novas possibilidades ao folhear o catálogo e conversar sobre o espaço. É nesse encontro que Néri construiu uma forma muito particular de trabalhar.
“Eu amo poder transformar ambientes e ver a satisfação no rosto dos clientes. Eu sempre digo que a casa da gente é um cantinho do céu, um lugar especial, íntimo, de acolhimento”, afirma.
Há dez anos, ela trabalha com venda e instalação de papel de parede. É microempreendedora individual (MEI), mora no bairro Passo dos Fortes, em Chapecó, e não possui loja física. Seu endereço de trabalho muda conforme a demanda: pode ser uma residência na cidade, um apartamento em Joinville ou um imóvel em Meia Praia, em Itapema.
A história com o empreendedorismo, porém, começou muito antes. Natural de União do Oeste, Néri cresceu em uma família ligada à agricultura e conciliou o trabalho no campo com as primeiras iniciativas comerciais. Ainda jovem, teve uma pequena loja de confecções e fios e ensinava crochê e tricô para mulheres da comunidade. O artesanato já ocupava espaço importante em sua vida e alimentava o desejo de conquistar independência pelo próprio trabalho.
Há 31 anos, mudou-se para Chapecó. Ao longo da vida profissional, passou apenas dois anos e meio com carteira assinada. Nos demais períodos, criou as próprias oportunidades. Vendeu cosméticos de porta em porta e, depois, dedicou-se à pintura artesanal em potes e vasos. O negócio cresceu e chegou a comercializar cerca de 20 mil peças por mês.
Néri também se tornou corretora de imóveis e especialista em perícia imobiliária, mas encontrou na decoração a atividade com a qual mais se identificava. O gosto pelos trabalhos manuais, o olhar para os detalhes e a facilidade de conversar com as pessoas se ajustaram naturalmente ao trabalho com papel de parede.
RELACIONAMENTO
A ausência de loja física se transformou em característica do negócio. Quando recebe o contato de um cliente, Néri marca uma visita e leva os catálogos até o imóvel. No local, observa o ambiente como um todo e ajuda na escolha do produto de acordo com a decoração e com o gosto de quem vive ali.
“Ao ir até a casa do cliente, consigo ver a decoração, os móveis, o espaço, a estrutura e sugerir o produto que compõe melhor. Com exceção de quem já sabe o que quer, a maioria gosta de conversar e analisar possibilidades que ainda não havia imaginado”, conta.
Depois da escolha, faz o pedido e, em cerca de quatro dias úteis, o material fica disponível para instalação. Néri trabalha com papel vinílico e aposta na combinação entre qualidade e preço competitivo. A filha Valéria participa da rotina, auxilia nas instalações, organiza a agenda e cuida da divulgação nas redes sociais. As duas instalam, em média, 200 metros de papel de parede por semana.
Outro número ajuda a explicar a trajetória construída nesses dez anos: cerca de 95% dos clientes chegam por indicação. Para Néri, a confiança nasce do cuidado com o serviço, mas também da proximidade criada em cada visita. 
Dentro das casas, ela conhece histórias que não aparecem nos catálogos. Muitas conversas começam com estampas, cores e medidas e terminam ao redor da mesa, com café e confidências. “Não é só sobre papel de parede, é a vida das pessoas. Eu chego em uma casa, a pessoa faz um café, um lanche e quer conversar sobre sua vida”, relata.
Entre os episódios que guarda na memória está o atendimento a um casal que enfrentava uma separação. Eles pretendiam renovar o imóvel para vendê-lo e dividir o patrimônio. Durante a visita, Néri compartilhou parte da própria experiência. “Chamei os dois, conversei sobre minha separação, sobre como poderiam fazer diferente, e eles estão juntos até hoje”, conta.
A religiosidade também orienta esses encontros. “Sou muito religiosa e, sempre que puder, levo uma palavra de conforto ou um direcionamento para alguém que precisa.” Essa relação ajuda a entender o afeto com que Néri fala das casas. Para ela, cada ambiente guarda histórias, lembranças e expectativas. O papel de parede transforma o espaço; o contato com as pessoas dá sentido ao trabalho.
CRÉDITO PARA CRESCER
Em diferentes momentos da trajetória, trabalho e disposição também precisaram de suporte financeiro. A relação de Néri com a Credioeste começou em 2008, com uma operação de R$ 7 mil para a compra de materiais. Desde então, foram dez operações de crédito, destinadas principalmente à aquisição de produtos e ao capital de giro.
A dinâmica do negócio exige organização financeira. O papel de parede tem custo elevado, os fornecedores recebem à vista e muitos clientes pagam a prazo. “O papel tem custo alto e preciso pagar os fornecedores à vista, porém vendo a prazo. Então o crédito faz toda a diferença para dar o giro”, explica.
Ao longo de 18 anos de parceria, Néri também passou a valorizar a proximidade no atendimento. “A Credioeste faz parte da minha vida. Sempre que precisei de suporte, pude contar com eles. O Gui [Guilherme Fontana, agente de crédito] é uma bênção. Eu chamo e ele vem até minha casa, me atende na hora.”
Para ela, o crédito é uma ferramenta para sustentar o trabalho e ampliar o negócio. “Eu não estaria no patamar que estou hoje sem a ajuda deles. Para mim, crédito não é dívida, é investimento no meu trabalho. Tudo o que preciso fazer é pagar certinho.”
Essa convicção foi colocada à prova em 2024. Após a separação e uma dívida que precisou assumir como avalista, Néri iniciou o ano com aproximadamente R$ 400 mil em compromissos financeiros. Foi o período mais difícil da trajetória.
Ela precisou reorganizar a vida, manter o negócio ativo e garantir recursos para continuar comprando materiais. Naquele ano, recorreu a três operações de crédito da Credioeste e enfrentou meses de trabalho intenso, controle das contas e persistência. “Eles conhecem minha história desde o início e sempre fizeram de tudo para me ajudar. É muito bom poder contar com uma parceria dessas”, diz.
Hoje, os planos voltam-se ao crescimento. Valéria já participa diretamente do negócio e o genro Matheus também integra os projetos para o futuro. Entre os objetivos está a formação de um estoque próprio maior, para reduzir o intervalo entre a escolha do cliente e a instalação.
Parar não está nos planos. “Quero continuar crescendo, construir um bom estoque para meu negócio e ajudar a transformar o cantinho do céu das pessoas.” 
Ao resumir o que aprendeu nessa caminhada, Néri não fala em fórmulas de sucesso. Fala da mesma persistência que a acompanha desde União do Oeste, atravessou diferentes negócios e foi essencial nos momentos de recomeço. “É preciso nunca desistir, porque sempre haverá desafios, mas a persistência e a excelência nos levam longe.”

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