Assado patagônico transforma carne ovina em atração na EXPOMERCO em Chapecó
Do Campo ao Prato foi campeã com melhor assado e melhor equipe
Fotos: Keli Magri/MB Comunicação
Fogo baixo, tempo, tempero e controle preciso das brasas definiram o 1º Concurso de Assado de Ovelha Patagônico da EXPOMERCO 2026, em Chapecó. Às 13h de sábado (26), seis equipes posicionaram os animais inteiros diante do fogo, em estruturas metálicas próprias para esse tipo de preparo, e começaram uma disputa de seis horas em que técnica e atenção fizeram a diferença. Tradicional em regiões da Argentina e do Uruguai, o assado patagônico utiliza calor indireto e cocção lenta para preservar a suculência e realçar o sabor da carne. A competição apresentou ao público essa forma de preparo e também a diversidade de carnes de diferentes raças, em uma ação voltada ao estímulo do consumo de carne ovina.
A lenha foi fornecida pela organização e padronizada para todas as equipes. O que mudou foi a estratégia. Houve quem criasse misturas com vinho branco, ervas, manteiga e alho. Outros seguiram o caminho oposto: sal de parrilla e nada mais, para deixar a carne falar por si.
Às 19h, os seis jurados começaram a avaliação. A ordem das equipes foi definida por sorteio. Cada grupo retirou o assado do fogo, colocou-o sobre a mesa e fez o corte solicitado pela banca. Maciez, suculência, aspecto, sabor e apresentação estavam entre os critérios previstos no regulamento. Depois da avaliação, os assados foram servidos ao público.
O concurso fez parte da programação da ovinocultura e da caprinocultura na EXPOMERCO, que reuniu centenas de animais de diferentes raças, produtores, empresas e frigoríficos. O Sebrae/SC apoiou o setor na feira e mantém projetos voltados à cadeia produtiva no Oeste, com investimentos superiores a R$ 800 mil em ações de desenvolvimento.
Para a gerente regional do Sebrae/SC Oeste, Marieli Musskopf, a aproximação entre quem produz e quem consome é uma das frentes necessárias para consolidar o mercado. “Temos produtores que evoluíram em gestão, genética, sanidade e qualidade dos animais. O passo seguinte é transformar esse avanço em mercado. O Sebrae/SC apoia a cadeia justamente nessa conexão. Quando o consumidor prova a carne, conhece as raças e percebe as possibilidades de preparo, também começamos a romper barreiras de consumo e criar novas oportunidades para os produtores”, afirma.
TEMPERO LEVA O PRIMEIRO LUGAR
Entre os seis assados, a receita mais elaborada conquistou os jurados. A equipe Do Campo ao Prato ficou em primeiro lugar com um Corriedale de 23,8 quilos e também levou o prêmio de melhor equipe. O preparo levou sal grosso, vinho branco, alecrim, manjericão, alho, hortelã e manjerona. Durante as seis horas diante do fogo, a carne ainda recebeu hidratação com vinho branco colonial. O grupo reuniu criadores de Cordilheira Alta, Daniel Favero e Leonel Wagner e do Distrito Marechal Bormann, em Chapecó, Evandro Klein, o Xiru e seu filho Otávio Klein. “Essa raça é como se fosse o gado europeu na ovinocultura, é uma carne nobre, com menos gordura”, explica Xiru.
Ele cria ovinos das raças Crioula e Corriedale-NC (naturalmente coloridos), trabalha com melhoramento genético na sua Cabanha do Prata e foi um dos organizadores do concurso. Começou em 2025 com oito animais sem raça definida e passou a investir em exemplares registrados. Hoje mantém cerca de 28 Corriedale e 4 Crioulos em uma propriedade de aproximadamente cinco hectares, onde também produz erva-mate e cria cavalos crioulos.
Para ele, o tamanho reduzido da área ajuda a explicar uma das vantagens da ovinocultura. É possível organizar um plantel produtivo em propriedades menores, desde que haja manejo e mercado. O criador recebe assistência do Senar/SC e do Sebrae/SC em áreas como reprodução e sanidade.
A ideia do concurso também veio de uma experiência observada por Xiru em Bagé, no Rio Grande do Sul. A intenção, agora, é fazer da competição uma atração anual e aumentar o número de participantes.
APOSTA NO SABOR
Se o campeão carregou nas ervas, o segundo colocado escolheu quase o oposto. A equipe Os Taura, de Chapecó, levou um Texel de cerca de 25 quilos e usou apenas sal de parrilla. “Queríamos preservar o sabor original e as características da carne”, explicou Vagner Schneid, médico-veterinário e integrante da equipe ao lado de Willian Marcon e Douglas Alan.
O animal veio da Chácara de Schneid, Las Piedras, na Linha Batistello, em Chapecó. A propriedade mantém cerca de 20 ovinos Texel e Corriedale destinados à produção de carne. A criação começou há aproximadamente três anos e está em fase de expansão. Schneid pretende estruturar um confinamento para até 300 animais. O projeto prevê compra de matrizes, aumento do plantel e comercialização regular com frigoríficos. A ovinocultura também tem um componente familiar. A intenção é transformar a criação em fonte de renda e, ao mesmo tempo, aproximar os filhos, hoje com quatro e seis anos, da atividade rural.
A opção por pouco tempero também levou a Cabanha Chapecó ao terceiro lugar. O grupo apresentou um Lacaune de aproximadamente 20 quilos, temperado apenas com sal de parrilla. A raça é conhecida principalmente pela produção leiteira. Na propriedade, na Linha Tormen, são cerca de 960 animais, dos quais 250 estão em ordenha. A produção chega a aproximadamente 310 litros de leite por dia e abastece a Sorveteria da Cabanha, Ovelha Béé, além de laticínios regionais.
Segundo Cristiano Janzen, gerente da Cabanha, a escolha pelo tempero simples teve uma razão: preservar as características de uma carne que considera leve e suculenta. A propriedade também avança na industrialização. Uma fábrica de leite em pó está em fase final de implantação e uma fábrica de chocolate também está em desenvolvimento.
APRESENTAÇÃO DESTAQUE
A equipe Turma da Catequese reuniu criadores e amigos de Coronel Martins/SC, Iomerê/SC, São Lourenço do Oeste/SC, Galvão/SC, Vargeão/SC e Erechim/RS. O grupo não levou o título de melhor assado, mas a de melhor apresentação. O cordeiro Hampshire Down, de aproximadamente 15 quilos, foi servido acompanhado de pimentão com queijo provolone e abacaxi.
Os acompanhamentos não interferiram na avaliação da carne, mas ajudaram na composição visual da equipe. Entre os participantes estava Emerson Bett, de Coronel Martins, produtor da Fazenda São Miguel e da Cabanha Dom Miguel. A propriedade mantém aproximadamente 160 animais das raças Hampshire Down, Texel e Texel-NC, com produção voltada à carne e à genética.
Para Bett, a raça Hampshire Down oferece características favoráveis ao assado, como precocidade, maciez e marmoreio — a gordura entremeada nas fibras da carne que contribui para a suculência. O grupo também reuniu Tony Bogoni, de Iomerê, que mantém cerca de 150 ovinos Hampshire Down e Crioula, Felipe Bottega, de São Lourenço do Oeste, que entrou na atividade há cerca de dois anos e Eduardo Meneghatti Júnior, da Cabanha Dom Gregório, de Erechim/RS.
Bottega afirma que a procura pelo cordeiro comercial tem crescido. Os machos produzidos na propriedade encontram mercado em frigoríficos, enquanto parte das fêmeas permanece no rebanho para permitir a expansão do plantel.
EXPERIÊNCIA E INTEGRAÇÃO
A equipe Os Pelegos, ligado à Escola Agrícola de Chapecó, seguiu outro caminho. O grupo formado por Gilson Bevilaqua, Cícero Gomes, Nelson Lopes e Gisson Saugo levou um animal de 19 quilos, resultado do cruzamento entre Dorper e Santa Inês.
Foi a primeira vez que o grupo preparava uma ovelha inteira no estilo patagônico. Acostumados a assados entre amigos e em festas, aceitaram o concurso como um desafio. A aposta esteve no tempero: chimichurri, sal de parrilla e salmoura com vinho branco, hortelã, alho, manteiga e alecrim. Para o grupo, a carne ovina tem sabor próprio e o tempero pode ajudar a construir uma experiência diferente para consumidores menos habituados ao produto.
A sexta equipe reuniu representantes da Granja Taffarel, de Guatambu, e do Bandeira´s Ranch, de Chapecó, liderados pelo promotor de eventos do setor, Patrick Tolotti. O Texel de 17,5 quilos recebeu vinho branco e sal de parrilla. A lógica, novamente, foi evitar excesso de temperos. Integrante da equipe, Edenilson Taffarel mantém aproximadamente 60 ovinos, entre 40 matrizes e 20 machos e borregos, com produção destinada para corte. A propriedade conta há três anos com Assistência Técnica e Gerencial do Sena/SC e do Sebrae/SC. Segundo Taffarel, o acompanhamento trouxe avanços na qualidade dos cordeiros, no número de animais nascidos e na comercialização. A criação divide espaço com bovinocultura de leite e produção de grãos. Para ele, o sistema em piquetes e o aproveitamento de áreas menores tornam a ovinocultura uma alternativa econômica para pequenas e médias propriedades.
DA EXPOSIÇÃO PARA O PRATO
Na avaliação do coordenador da Câmara Setorial de Ovinos e Caprinos de Santa Catarina, Paulo Gregianin, o concurso aproximou a produção do consumidor e mostrou, na prática, o potencial da carne ovina para ganhar espaço no consumo cotidiano.
“Podemos falar de genética, produtividade e qualidade dentro da propriedade, mas é no prato que o consumidor decide. O concurso mostrou seis formas de preparar a carne e seis histórias diferentes de produtores. Queremos que as pessoas percebam que a carne ovina não precisa aparecer somente em festas ou datas especiais. Ela pode entrar no consumo cotidiano. O setor cresce, os produtores aumentam seus rebanhos e agora precisamos avançar também na oferta e na regularidade do mercado”, ressalta.
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