Postado em 06 de Março às 14h16

A mulher que desafiou o destino e escreveu seu nome na história da indústria da construção

Bárbara Paludo atravessou perdas, crises e recomeços e hoje segue à frente do setor.
Bárbara Paludo foi a primeira mulher a fundar uma construtora em Santa Catarina. (Foto: Débora Favretto/ MB Comunicação)
Casas são construídas para serem fortalezas, espaços de segurança, lugares sólidos. Acredite, algumas pessoas também. Bárbara Paludo é uma delas. Como a jornalista e historiadora Mônica Haas descreveu ainda na década de 80, a “dama de ferro” da construção chapecoense nasceu com este propósito. Uma mulher que encarou cedo a partida do marido e com quatro filhos pequenos se dispôs a continuar uma grande jornada.
Depois de fundar três empresas, construir mais de seis mil unidades, liderar mais de 600 funcionários em um único momento, hoje atua como investidora no Brasil e na Itália, voluntária em entidades do setor e como conselheira suplente do Instituto Euvaldo Lodi de Santa Catarina (IEL/SC) que pertence ao sistema FIESC.
A empresária não usa a palavra “aposentadoria” para falar de si. Diz que não se reconhece na idade que o documento aponta. Sua história a coloca como uma das grandes lideranças femininas do setor, que ajuda a moldar a indústria catarinense.
INFÂNCIA
Bárbara nasceu em Barra do Leão, Campos Novos (SC). A infância foi dividida entre o trabalho na roça e a vontade de estudar. O pai dizia que mulher não precisava ir à escola. Para conseguir permissão, ela montou um acordo próprio: trabalhava meio período e, no outro, atravessava o Rio do Leão e caminhava cerca de sete quilômetros para assistir às aulas. Quando o “não” parecia definitivo, a menina buscava outra saída. Combinava com a professora visitas aos domingos. A educadora aparecia em casa, buscava frutas, conversava com o pai e tentava convencê-lo. “Eu já fazia negócios com oito ou nove anos para poder estudar”, lembra. Conseguiu estudar até a quinta série.
A história empresarial começou há cerca de 50 anos. Ela, o marido, Luís Paludo, e os quatro filhos Luiz Alberto, Augusto Fernando, Lusiane e Leciane de Concórdia, decidiram vir para Chapecó e montaram um caminhão frigorífico para atender a Sadia. Bárbara disse que ajudou a comprar o primeiro veículo com o próprio trabalho.
“Um mês após nos mudarmos para Chapecó, meu marido começou a adoecer. Ele estava com um câncer linfático. Fomos para Porto Alegre, tentamos tudo o que pudemos, mas infelizmente o organismo dele não conseguiu superar a doença. Íamos recomeçar nossa vida quando aconteceu essa tragédia. Decidi arregaçar as mangas e ir à luta. Ninguém ia trazer feijão e arroz para meus filhos”, declara.
A empresária, sem experiência no transporte, conta que se apoiou na fé e na urgência de seguir em frente. Reuniu-se com o motorista, disse que entendia pouco do assunto e que assumir o negócio exigiria aprender muito mais. Ela acertou a continuidade do trabalho com o motorista e estabeleceu um combinado baseado em confiança e responsabilidade.
“Depois vendi o primeiro caminhão, comprei dois e mandei fazer câmaras frigoríficas. Um dia, um dos caminhões tombou na rodovia e o motorista morreu. O Luiz Alberto tinha 10 anos e foi comigo tirar o caminhão de lá. Sobrou só o motor. Por sorte, eu tinha 30% de seguro. Perguntavam para mim como eu lidava com tudo aquilo, sendo mãe e empresária. Eu rasgava a fronha do travesseiro à noite, pedindo a Deus força para continuar no outro dia”, relembra.
Depois do transporte, Bárbara mudou de rota. Vendeu os caminhões e montou uma loja de cortinas e decoração perto da Imobiliária Markize. Foi ali que, segundo ela, a construção civil entrou na história, primeiro como oportunidade, depois como destino. Na sequência, veio a chance de se tornar sócia na Markize. A entrada foi de 10%. Os outros 90% foram pagos com trabalho, em uma rotina sem horário fixo. “Era sábado, domingo, madrugada e em um ano, o setor de locação cresceu 130%”, recorda.
Quando tentaram alterar o contrato e reduzir sua participação, ela tomou a decisão de sair logo no outro dia. Vendeu as cotas e recomeçou. Em 4 de junho de 1981, fundou a Katedral Imóveis, atual KA Empreendimentos, um feito que ela destaca como um marco pessoal e histórico: a primeira mulher a fundar uma construtora em Santa Catarina.
O recomeço foi em passos largos e firmes como todo o andar da jornada. Bárbara vendeu um apartamento em Concórdia e comprou uma área no bairro Vila Real, em Chapecó. A primeira obra foi de 50 casas. Depois vieram 101 unidades para a Polícia Militar e, mais tarde, 400 casas em Lages. “Na época do governo Collor, os juros eram altíssimos e a Caixa Econômica não pagava. Tive que entrar em concordata. Mesmo assim, entreguei todas as casas. Primeiro paguei os funcionários, porque eles tinham família. Depois fui acertando com cada fornecedor. Paguei muitas dívidas com lotes, porque dinheiro não tinha. Por isso eu digo: uma mulher tem muita força”, frisa a empresária.
SUCESSÃO
Mesmo depois de entregar o comando para os filhos, Bárbara não parou de empreender. Para dar autonomia à condução da construtora e, ao mesmo tempo, abrir um espaço próprio, ela criou a Habitacom Investimentos em sociedade com Márcio Vaccaro, voltada à compra e ao desenvolvimento de áreas urbanas. A empresária também organizou uma holding familiar como forma de dar previsibilidade ao futuro e reduzir ruídos na sucessão.
Bárbara acredita que a continuidade do negócio também passa por uma lição ensinada cedo. Depois da morte do marido, os filhos cresceram acompanhando a rotina de trabalho e o peso das decisões. “Eles aprenderam cedo que as coisas não caem do céu. É preciso correr atrás.”
Ao olhar para trás, ela reconhece que cometeu erros como qualquer empreendedor que atravessa décadas de mercado e instabilidade econômica. Um dos maiores, diz, foi assumir um projeto grande demais em um momento de turbulência. “Talvez o maior erro tenha sido construir 400 casas de uma vez em Lages, numa época em que a economia era muito instável”, ao ressaltar o tempo marcado por juros altos e atrasos nos pagamentos de financiamentos habitacionais. Ainda assim, ela diz nunca ter cogitado desistir. “Erro serve para aprender, não para desistir”, resume.
Atua como conselheira suplente do Instituto Euvaldo Lodi de Santa Catarina (IEL/SC) que pertence ao sistema FIESC. (Foto: Débora Favretto/ MB Comunicação)

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